Quando a doença ajuda a repensar a vida
- brandaolenise
- 20 de jun. de 1999
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de ago. de 2024
Até hoje nos habituamos a pensar a doença apenas em sua negatividade, como algo externo que de súbito nos ataca, desorganizando nossa vida. Desta forma, colocamo-nos como vítimas do destino e aguardamos que um profissional restabeleça a nossa saúde, intervindo de fora em nosso organismo. Em outras palavras, não assumimos a responsabilidade pelo nosso adoecimento, nem nos comprometemos realmente com a nossa cura.
Uma nova proposta visa resgatar a positividade da doença, na medida em que esta passa a ser encarada como uma possibilidade de reflexão e reorganização. Vejamos melhor o que vem a ser isso.
Muitas vezes a doença força uma parada no ritmo acelerado, na rotina quase mecânica do nosso dia-a-dia. E com essa parada nos damos tempo para pensar e nos questionar em pontos importantes de nossas vidas que haviam ficado esquecidos ou vinham sendo protelados. Parece mesmo que quanto maior a gravidade da doença e a sua ameaça as nossas vidas, mais profunda é a nossa reflexão e mais nos tornamos abertos a realizar mudanças em nós mesmos, em nossos relacionamentos e em nossa maneira de viver. Passamos a buscar o que nos é essencial.
Questões fundamentais emergem: - "O que eu fiz na minha vida até agora? O que me realizou como pessoa? O que me fez (ou faz) mal? O que me falta?". Começamos a avaliar a nossa vida ou, melhor dizendo, a maneira como temos conduzido a nossa vida até o momento presente. E é nesse processo de avaliação que podemos começar a entender a nossa doença - não mais como algo estranho tomando-nos de assalto, mas como algo de alguma forma ligado as nossas experiências, ao que nós vivemos até este momento, às atitudes que mantivemos diante da vida, dos outros e de nós mesmos.
É necessário percebermos que o nosso organismo não está separado de nossas experiências e que aquilo que vivemos - nossos pensamentos, sentimentos, necessidades e crenças - tem uma repercussão no funcionamento de nosso corpo. E ao entendermos de que maneira participamos do nosso adoecimento, podemos fazer o caminho inverso e participar da nossa cura, não apenas através da escolha consciente do tratamento, mas também através da reorganização de nossas vidas - um reflexo da reorganização de nós mesmos. Quando mudamos internamente como pessoas, o que inclui mudança de atitudes, sentimentos, crenças e valores, mudamos a nossa vida, alcançando um nível de bem-estar até então desconhecido, o que repercute favoravelmente no funcionamento do nosso organismo.
Estamos aqui falando de um conceito mais amplo de cura, que não diz respeito apenas a eliminação dos sintomas físicos. Trata-se de um processo de renovação da pessoa como um todo, abarcando tanto a parte física, como também a parte emocional. Somos um corpo dotado de uma consciência de si mesmo e do mundo; somos, portanto, capazes de fazer avaliações, realizar escolhas e redirecionar as nossas vidas.
Ao invés de encararmos a doença como nossa inimiga, podemos percebê-la como um sinal enviado pelo nosso próprio organismo de que de alguma maneira estamos ultrapassando nossos limites, negando algumas de nossas necessidades ou não "digerindo" algum sentimento ou experiência. É' comum, por exemplo, "engolirmos sapos" e passarmos mal do estômago, ou ainda, nos sobrecarregarmos de tarefas e pegarmos uma virose. Através da doença o nosso organismo está falando-nos algo a respeito de nós mesmos e de nossas vidas, chamando a nossa atenção para algo que muitas vezes teimamos em não ver e que reclama alguma ação ou mudança de nossa parte. Nesse sentido a doença está sendo nossa amiga.
Conhecemos pessoas que realizaram mudanças profundas e significativas em suas vidas a partir de uma doença ou acidente grave. Isso não quer dizer que mudanças só possam ocorrer nessas circunstâncias. Ao contrário, melhor seria que fizéssemos aqueles questionamentos fundamentais e corrigíssemos a nossa rota na vida antes que adoecêssemos. Mas, uma vez que a doença - o desequilíbrio, a desarmonia - já se desenvolveu em nosso organismo e em nossa vida, podemos aprender muito com ela e utilizá-la como um instrumento para o nosso crescimento pessoal.
Uma moeda tem sempre duas faces. De forma semelhante, é preciso que tratemos do nosso corpo e da nossa mente. Se temos dificuldade de empreender sozinhos essa exploração de nós mesmos, de entrar em contato com nossos sentimentos, necessidades e atitudes, podemos paralelamente ao tratamento médico pedir a ajuda de um psicoterapeuta para nos auxiliar nessa compreensão e reorganização de nós mesmos a partir da doença.
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