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Psicologia Humanista-Existencial - Uma Nova Visão do Homem

  • brandaolenise
  • 29 de set. de 2024
  • 25 min de leitura

O presente trabalho surgiu da necessidade de maior fundamentação filosófica da Abordagem Centrada na Pessoa, dentro da qual procuramos desenvolver nossa atuação profissional, seja ela educacional ou terapêutica.


Esta necessidade de aprofundamento filosófico, por sua vez, pode ser sentida a partir de uma identificação do discurso proferido pelos humanistas e existencialistas com as nossas aspirações, crenças e posturas acerca do homem. De modo que este trabalho, além de uma simples exposição, constitui também uma reflexão sobre o humano através da história até chegar ao homem atual, para o qual converge e diante do qual se fundamenta toda a Psicologia Humanista-Existencial, este mesmo homem, com o qual interatuamos no dia a dia do nosso trabalho num processo de crescimento e enriquecimento mútuos.


Dedicamos a primeira parte deste trabalho a uma exposição sobre o desenvolvimento dos movimentos humanistas, da cultura clássica ao mundo contemporâneo, apontando o surgimento do existencialismo neste percurso histórico e assinalando os seus respectivos pressupostos básicos.


Na segunda parte, procuramos mostrar como tais pressupostos se integram entre si e com o clima cultural de nossa época, resultando o que se passou a chamar de Psicologia Humanista-Existencial.



- Parte I: O Humanismo e o Existencialismo


1.1. O Humanismo Clássico:

A influência da cultura grega faz-se presente até os nossos dias de diferentes maneiras, modelando ainda muito de nosso pensamento, de nossas crenças e, até mesmo, de nossos hábitos e valores. Nada há de se estranhar, portanto,  que o humanismo, que ora respiramos, apresente também várias influências da cultura clássica.


A teoria e a arte nos gregos estavam em função de uma praxe humanista. Segundo Nogare (1983), a obra de arte que eles ansiaram produzir foi o homem – “correto e sem falhas nas mãos, nos pés e no espírito”. Dentro de toda a cultura grega, o homem era colocado em posição privilegiada e os principais valores nele realçados eram os da beleza, força, harmonia, heroísmo e genialidade, vide os heróis e deuses da Grécia Antiga.


Com relação à reflexão sobre o homem, sua natureza e problemática, ela podia já ser encontrada nos pré-socráticos, embora não constituísse foco central de suas produções, cuja preocupação residia em localizar a substância primeira, da qual todo o cosmo tivesse derivado. Esta substância, a única que teria uma existência em si, seria o princípio, o fundamento de todas as coisas. Para Tales de Mileto, seria a água e para Anaxímenes, o ar. Empédocles propunha uma origem plural – a água, o ar, a terra e o fogo. Já para Pitágoras, a essência última de todo ser seria o número.


A reflexão antropológica tornou-se vigorosa com Heráclito, que via o homem como parte do cosmos, estando por um lado submetido as suas leis, mas sendo capaz, por outro lado, através da sua consciência, de apreender a lei eterna da vida do todo e participar da sabedoria divina. Para Heráclito, as coisas mudam constantemente. O existir é uma constante mudança, um estar constantemente sendo e não sendo, um constante devir. Daí a sua frase “Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio”.


Com os sofistas, a problemática humana tornou-se quase que exclusiva, devendo-se a eles o primeiro humanismo que a história conheceu. Fundadores da ciência da “Paidéia” (educação), eles iniciaram a separação entre educação e religião. Por outro lado, eram criticados pelo uso abusivo da dialética como método de reflexão e por ensinarem mediante pagamento. Traziam à discussão os problemas políticos, morais, jurídicos e estéticos que giravam em torno do homem. Operava-se, portanto, uma guinada na reflexão filosófica – do problema cosmológico ao problema antropológico. E a educação passou a se estender ao homem adulto, englobando todas as exigências físicas e espirituais que formassem o homem ideal.


Foi Protágoras, o mais famoso dentre os sofistas, que pela primeira vez levantou a polêmica entre educação técnica e educação humanista, colocando esta última como fundamental a todos. É dele a frase “O homem é a medida de todas as coisas...”, significando que o homem deveria ser o critério do valor das coisas, devendo estar todas elas subordinadas ao homem, em função de sua realização.


Sócrates é tido como o iniciador do humanismo ocidental. Procurou reduzir as ações e modos de conduta das pessoas a certo número de virtudes – a justiça, a compaixão, a temperança, a coragem, etc., que seriam as virtudes primordiais da vida moral. Em seguida, aplicou a intuição intelectual para explicar racionalmente o que seria cada uma delas. Buscou assim dar a razão, o logos, o conceito de cada virtude. Desse modo, acreditava que a moral poderia ser ensinada e aprendida e, assim, ninguém seria mau. Pois para Sócrates aquele que era mau, o era porque não sabia.  


Foi o primeiro filósofo a falar de seu método – a maiêutica, que consistia em interrogar continuamente, fazendo a definição passar por sucessivos aperfeiçoamentos e ficar o mais exata possível. A sua frase “Homem, conhece-te a ti mesmo” era um convite ao ser humano experimentar o seu próprio poder, os seus próprios limites, se autogerir e evoluir a partir de dentro, conscientizando-se a cada momento. Apesar da quase ausência de escritos, Sócrates nos deixou muito mais, através do seu exemplo de vida, com sua dignidade e coragem, até mesmo no momento de sua morte.


Platão inaugurou a especulação filosófica sistemática sobre o homem, tendo colocado como problemática humana básica a dicotomia espírito/matéria, alma/corpo – antes unidos numa só realidade, a Fisis ou Natureza, e agora compondo duas realidades distintas e opostas, estando sempre em luta. Platão esclarecia esta luta através da teoria das três almas: a alma racional (na cabeça, governando todas as atividades, movimentos e sentimentos), a alma irascível (no peito, representando o ímpeto, a generosidade, o entusiasmo, que podem ser proveitosos, se bem governados) e a alma concupiscível (no abdômen, correspondendo à cobiça, à covardia, etc). Ele ilustra essa teoria com o mito do carro puxado por uma parelha alada e conduzido por um cocheiro (a alma racional). Um dos cavalos, belo e bom, seria a alma irascível e o outro, de má raça e natureza brava, seria a alma concupiscível. Em outra imagem, haveria dentro do homem: um monstro policéfalo, que representaria os instintos, em sua maioria perversos; um leão, que significaria a cólera, a coragem, o entusiasmo, etc; e um homem, que seria o espírito, a razão. A tarefa do ser humano seria fortalecer o homem interior, para que ele cuidasse da besta, buscando a cooperação do leão.


Ao transpor a dicotomia corpo/alma para a realidade, Platão desenvolveu a teoria dos dois mundos, colocada anteriormente por Parmênides. No mundo das idéias, da luz, se encontrariam as essências infinitas, eternas e imutáveis de todas as coisas. E,   em contraposição a este mundo real, haveria o mundo das aparências, das sombras, marcado pelos limites e pelas imperfeições, onde as projeções das essências se apresentariam em constante mudança. Este mundo seria, portanto, enganoso para o homem, devendo este empenhar-se para, através da reflexão, ultrapassá-lo e atingir as idéias primeiras – a única verdadeira realidade a que o homem poderia se ater.


Aristóteles veio opor-se a Platão, seu mestre, contra-argumentando ser o próprio homem que produzia as idéias e, consequentemente, formava o mundo da luz, sendo o nosso mundo mutável, limitado e imperfeito tão real quanto aquele. Também não haveria para Aristóteles uma dicotomia entre corpo e alma no ser humano. Estes dois elementos se integrariam numa só realidade, estando íntima e inexoravelmente unidos. A alma seria a forma do corpo, a sua essência, aquilo que dá sentido, fim ao corpo. E o corpo seria a vivificação da alma. O corpo só é corpo, vivificado pela alma. A alma, contudo, transcende o corpo. Ao invés do irremediável conflito e divisão, existiria no ser humano a unidade e a integração. O homem seria, pois, uma totalidade.


À parte tais divergências quanto à constituição do ser humano, não só Platão e Aristóteles, como também Sócrates, possuíam uma mesma crença quanto à direcionalidade positiva da natureza humana. Para eles, todo homem tenderia à felicidade, ao bem, tendência esta que se constituiria na busca da sua imortalidade através da procriação física e espiritual. Esta busca, por sua vez, se daria através do amor e, neste sentido, todo amor seria bom, visto ser amor da felicidade, do próprio bem. Esta direcionalidade positiva do ser humano envolveria, portanto, o seu próprio ser e também o outro.


O humanismo dos gregos, contudo, ateve-se a uma minoria aristocrática, nele estando ausente o conceito de pessoa e permanecendo sem solução o problema da origem e do sentido da existência humana.


Aos romanos coube a transmissão e difusão da cultura grega. Apesar de terem dominado militarmente o povo grego, a cultura grega era tão mais densa em volume e riqueza, que os romanos a incorporaram, imitando suas obras e abarcando seus modelos. Em um campo apenas os romanos realmente inovaram – o do Direito, criando o maior sistema de leis da história. Na filosofia, houve muito mais a repetição ou adaptação de obras gregas, revestindo-as de novas formas literárias, do que uma produção propriamente dita.


Dois sistemas de filosofia, cujas raízes se encontram em Atenas, tiveram maior aceitação junto aos romanos, devido ao caráter prático e à preocupação ética. Foram eles o estoicismo e o epicurismo. O primeiro colocava a perfeição humana na impassibilidade absoluta, no viver segundo a “reta razão” e tinha como objetivo formar um super-homem moral. O outro sistema buscava a perfeição humana no prazer sabiamente racionalizado, chamando a atenção para a necessidade de satisfação de todas as exigências do ser humano, que é também corpo, estando aí, portanto, incluídas as suas necessidades físicas. O objetivo era o de orientar o homem comum.


1.2. O Humanismo Cristão: 

Podemos destacar a sua nascente primitiva na pessoa de Cristo e a síntese filosófica que este humanismo veio a sofrer na Idade Média com São Paulo, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, numa tentativa de justificar o Cristianismo diante da razão humana através da sua integração ao pensamento dos grandes filósofos gregos, sobretudo Platão e Aristóteles.


O humanismo pregado por Cristo concedeu particular atenção aos marginais da sociedade – prostitutas, pecadores e pobres, que foram pela primeira vez na história considerados como pessoas. Mostrava-se ele receptivo a atento às necessidades dos indivíduos particulares, que eram chamados e conhecidos pelos seus próprios nomes. E havia ainda a preocupação com a libertação de todos os homens, libertação tanto interior como exterior. A primeira se processaria pela conversão íntima de cada sujeito e seria condição para a segunda libertação, que ocorreria através de uma transformação profunda das estruturas sociais, combatendo-se aquelas estruturas que se opunham ao novo homem cristão.


Além disso, foi ele que colocou o que seriam as bases de uma civilização e de uma sociedade verdadeiramente humanas, ao proferir que o relacionamento entre os homens fosse fundado no amor.


Com Santo Agostinho, o maior pensador da Igreja antiga, as idéias de Platão foram inseridas na nova visão cristã. A filosofia constituía-se na reflexão do homem sobre o homem, assumindo a interioridade – plataforma da investigação filosófica, um valor não só psicológico, como também crítico (através do exercício da dúvida no pensamento), cosmológico (pelo significado que o mundo externo só adquire na experiência interior do homem) e teológico (visto ser apenas voltando-se para as suas profundezas que o homem encontra Deus). Esta reflexão sobre si e conquista da própria interioridade seria, entretanto, um processo árduo, feito de lutas, recuos, lágrimas e alegrias, e estaria ligado à contínua busca de transcendência do homem.


São Tomás de Aquino, tido como o verdadeiro sistematizador do Cristianismo, ateve-se ao ponto de vista aristotélico, cuidando de salvaguardar a imortalidade da alma, baseado nos próprios princípios de Aristóteles. O homem seria a um só tempo corpo e espírito, síntese natural de princípios contrários que, não obstante, formariam uma unidade substancial, íntima e profunda. “Sou corpo e alma juntos”. Apesar de ser forma do corpo, a alma seria espiritual e, portanto, imortal. A morte corresponderia apenas à decomposição da matéria.


A definição de pessoa que São Tomás tomou emprestado de Boécio ressaltava como distintivo fundamental da pessoa humana a sua racionalidade, dotando-a de uma consciência de si, de uma liberdade, responsabilidade e criatividade, e colocando-a no vértice do universo. A pessoa tornava-se, então, um valor absoluto, um fim em si, que nunca poderia ser instrumentalizado.


O agostinianismo e o tomismo, as duas correntes da filosofia cristã, fizeram-se presentes através dos anos e continuam no momento atual. Há quem veja no humanismo agostiniano, centrado na introspecção e na valorização dos aspectos existenciais e concretos da realidade uma antecipação do Existencialismo atual. E poderíamos perguntar se a filosofia tomista, voltando-se para o raciocínio puro e para a valorização dos aspectos abstratos e universais, não antecederia o Hegelismo, contra qual veio a se insurgir o próprio Existencialismo.


  1.  O Humanismo Renascentista:

Na entrada da Idade Moderna, houve um movimento de volta para os grandes nomes da cultura clássica e suas obras, com imitação de suas formas literárias e artísticas, constituindo-se aqueles em verdadeiros modelos, cujos valores humanos eram também apropriados. O movimento rompeu com o sistema escolástico medieval de pensamento, desenvolvido pelos filósofos da Igreja, abrindo a porta para o pensamento crítico independente que levaria ao paganismo.


Ao contrário da Idade Média, quando a maior atenção era dedicada a Deus, em função do qual o homem era enfocado e existia mais como espectador do universo, na Renascença o homem se apercebeu de si mesmo, de suas capacidades e poder criativo, numa visão declaradamente otimista de si mesmo. E partiu para a sua realização. Surgiu a preocupação com a formação desse homem, aparecendo alguns educadores e livros falando sobre o que seria o comportamento do homem bem educado. Ressaltava-se a sua dignidade que residia no fato dele ser a única criatura liberta de uma natureza determinante. O homem seria o autor de si mesmo.


Ao lado de um brotar de gênios e talentos nas artes, o interesse voltava-se também para a ciência e para a pesquisa experimental. A natureza era vista como campo de experimentação e atividade do homem, cujo guia deveria ser a observação objetiva. O saber da ciência ofereceria instrumentos para o homem poder realizar-se mais plenamente, dominando o universo a sua volta. Na Utopia de Thomas Morus, ficou delineada a sociedade desejada e exigida pela nova cultura humanista. Este autor procedeu também uma reformulação do direito de propriedade e das relações econômicas, calcado na igualdade e na justiça social. Erasmo de Roterdã escreveu Do Livre Arbítrio, na luta pelo estabelecimento e definição da liberdade interior. Firmava ainda a importância da educação humanista com seus ideais de compreensão e fraternidade como saída dos males sociais daquela época.


Foi na Renascença que também teve início o questionamento da religião, a partir da confusão doutrinal e decadência moral da Igreja, o que motivou a Reforma Protestante de Lutero, e do próprio transbordar do humanismo. O homem tanto exaltou suas capacidades e seu poder, que se convenceu ser ele próprio o criador de Deus e não o contrário.


A Idade Moderna surgia impregnada de humanismo. Designou-se, contudo, pelo nome de Humanismo, o movimento literário da época, cujo aspecto filosófico colocava o homem como centro e pólo de convergência e explicação de todos os outros seres do universo – o antropocentrismo. O termo Renascença ficou abrangendo o florescimento cultural geral dos séculos XV e XVI, constituindo-se num fenômeno substancialmente italiano.


Todo este movimento, entretanto, não atingiu uma sensibilização, nem consequentemente levou a uma transformação da vida e da mentalidade das massas, que permaneceram pobres e analfabetas. Faltou a este humanismo histórico-literário-filosófico ganhar aplicação na práxis social, tornar-se costume e convivência social.


  1.  O Humanismo Contemporâneo:

 Aquele momento de crítica e contestação da igreja católica, enquanto instituição sócio-política, acabou por levar a ruptura entre os dois grandes componentes da civilização ocidental, a saber: o Cristianismo e a tradição cultural. A partir dessa ruptura, originaram-se duas vertentes no humanismo: de um lado, o humanismo absoluto, onde o Cristianismo como religião era superado e negado; e de outro lado, o humanismo super-teológico, que aceitava a ruptura já provocada por Lutero, mas reivindicava o primado da fé.


O humanismo contemporâneo vem sendo marcado por esta antítese, havendo aqueles que defendem a salvação do homem através da cultura na sua evolução histórica, onde a religião vem a ser apenas um momento transitório, a salvação do homem estando no seu próprio mundo. Outros existem que proclamam a salvação através da religião, sendo esta entendida como fé, e pregam o desprezo do mundo, visto que a salvação se situa fora dele.


O primeiro grupo irá desembocar na solução social para a humanidade, proposta por Marx e Feuerbach, este último influindo sobre a linha ateísta do existencialismo atual (Heidegger, Nietzsche, Sartre), ao passo que o segundo grupo caminhará para a solução religiosa, como foi colocada primeiramente por Kierkegaard, e seguida a posteriori pelos existencialistas teístas (Jasper, Gabriel Marcel, Buber).


Os dois pólos desta antítese apresentam, contudo, um ponto em comum, a partir do qual se edificaram – uma revisão crítica do sistema de Hegel.


Na década que seguiu a morte de Hegel, sua filosofia reinava absoluta, dela dependendo todos os outros saberes. Feuerbach, antes aluno entusiasta de Hegel, passou a se opor fortemente as suas idéias, defendendo que o pensamento provinha do ser e não o ser do pensamento. O ser existiria a partir de si e por si. E este ser não seria a idéia, de Hegel, mas o sensível. Apenas um ser sensível, objeto dos sentidos, seria verdadeiro e real.


Deste modo, passava-se do racionalismo puro de Hegel ao sensualismo radical de Feuerbach, que por sua vez possibilitaria o desenvolvimento do materialismo de Marx e a inversão da dialética de Hegel, de idealista para materialista.


Feuerbach também realizou uma crítica da religião. Em “A Essência do Cristianismo”, postulava que o homem havia criado Deus e que este corresponderia a uma projeção das características ideais do homem. A religião seria, portanto, uma ilusão, uma alienação. Esta colocação vai influenciar a teoria da alienação do humanismo marxista.


Existe, contudo, uma diferença entre Feuerbach e Marx. Para Feuerbach, a matéria, a natureza são objetos de observação e o homem, um espelho destes objetos, ou seja, é passivo. Em contraposição, o homem para Marx é ativo, transforma e recria a realidade numa atividade prática e subjetiva, o que irá desembocar na tese do homo faber.


Além disso, Marx se opõe a Hegel, pois para este a realidade primeira e fundamental é a idéia e a dialética, o modo de desenvolvimento da idéia e o método para compreender tal desenvolvimento. Já para Marx, a realidade primária e fundamental é a matéria e a dialética se torna o modo de desenvolvimento desta matéria e o método para compreender seu desenvolvimento. 


Em relação ao homem, a meta final de Marx seria a libertação da alienação, o que corresponderia à total realização do homem e da sua liberdade, constituindo-se este como senhor e fim de tudo, livre de toda escravidão e livre para qualquer realização. E para Marx o homem poderia ser o artífice de sua própria libertação por dois caminhos:

  1. compreendendo as leis e as necessidades históricas, e colaborando ativamente com elas, ou

  2. provocando a revolução libertadora pela luta de classes e violência, o que marcará o caráter militante do homem marxista, ligado ao conceito de homo faber.


Ou seja, o homem é criado pelo trabalho (a infra-estrutura de produção determinando as super-estruturas sociais, políticas e ideológicas) e com a libertação se torna criador da história. Ao moldar e humanizar a natureza pelo trabalho, o homem se cria, se torna produtor de si mesmo.


  1.  O Existencialismo:

O existencialismo caracteriza-se como um modo de filosofar que centra sua reflexão sobre a existência humana em seu aspecto individual e concreto. Daí se dizer que existem vários tipos de existencialismo, dependendo da visão particular de cada autor sobre os problemas humanos.


No período após a primeira guerra mundial na Alemanha, com a derrota infligida a aquele país somada à revisão crítica do pensamento moderno que se processava então, formou-se o clima propício para a eclosão de um movimento que se denominou Kierkegaard-Renaissance, e que consistia na descoberta e estudo do pensamento de Kierkegaard. Tal movimento, que atendia, portanto, a necessidades e exigências pré-existentes à sua descoberta, caracterizou boa parte da filosofia alemã daquele período. Quase contemporaneamente à Alemanha, assistia-se em outros países como a França, a Espanha, a Itália e a Rússia, nesta com a obra literária de Dostoievski, a uma insatisfação e inquietação semelhantes, descobrindo naquele pensador o seu antigo e atual mestre, rejeitado em uns pontos, aceito em outros e, em outros ainda, interpretado ou transposto.


Segundo Sciacca (1968), outro fator determinante na composição e entendimento do existencialismo é a teologia protestante de Lutero, vista enquanto teologia da crise ou da fratura irreparável entre Deus e o homem, percebidos em contraposição radical. A vertente teológica do existencialismo irá não só aceitar, como exasperar tal oposição e falará do nada do homem diante de Deus. A vertente não-teológica fará da fratura a essência do humano como tal e sublinhará como Heidegger o “ser para o nada”.


Neste sentido, o existencialismo aparece como “filosofia da crise”, de uma época de crise, elevando as “fraturas” históricas de uma geração atormentada na Europa pelas duas grandes guerras a “fraturas” inerentes ontologicamente ao homem, “fraturas” pertinentes a existência humana como tal.


Kierkegaard, tido como o pai do existencialismo, viveu na primeira metade do século XIX e suas idéias faziam oposição as de Hegel, que gozavam então de ampla aceitação e difusão na Alemanha. Para Hegel, o mundo em sua multiplicidade, a Natureza, nada mais era do que a exteriorização do Absoluto, impelido por sua lei interna – a dialética, que lhe dava movimento segundo a marcha da tese, antítese e síntese. O que existia era o Absoluto e nada escapava ao seu movimento dialético, nem o nosso espírito, visto que o Absoluto era identificado com a razão, daí a afirmação de que “todo real é racional e todo racional é real”.


Kierkegaard se opôs ao universalismo abstrato e ao racionalismo dialético de Hegel, ao dizer que o verdadeiramente existente era o singular – este algo individual, presente aqui e agora, do qual o universal viria a ser pura abstração. Não haveria verdades objetivas e absolutas, mas verdades individuais e subjetivas. A verdade corresponderia à adequação do objeto com a minha subjetividade e não, o contrário. Kierkegaard reagia contra dissolver os indivíduos no anonimato e no impessoal, e convidava cada um a coragem de ser si mesmo, a encontrar a sua verdade subjetiva, a viver na e pela própria interioridade. Ser si mesmo significava conquistar a própria autenticidade, ter o homem consciência de sua finitude, confrontado a um infinito que o ultrapassa.   


Historicamente a palavra essência é anterior à palavra existência. Vem de essentia, do verbo esse, ser. Significa a meditação filosófica sobre aquilo que é, pensando na essência das coisas. Só mais tarde surgiu em latim a palavra existentia, derivada de existere (ex-sistere = sair de, movimento para fora), significando mostrar-se, projetar-se no espaço e no tempo, transcender-se.


O princípio da metafísica clássica fica invertido – a essência passa a ser definida pela existência. E existência é liberdade, é um criar-se contínuo na sua temporalidade. A escolha depende de cada indivíduo e é no instante que a precede que se toma consciência da própria liberdade. Antes de escolher, o indivíduo é pura possibilidade, o seu futuro não é nada, pertence a ele na sua existência determinar. O homem, portanto, é a sua existência; ele se cria existindo. Ao contrário dos outros seres, o homem não tem uma essência pré-determinada, é livre. E a angústia é o sentimento que acompanha a liberdade e a escolha, e não há como escapar da angústia, já que ninguém existe sem fazer opções.


Para Heidegger, a angústia advém das infinitas possibilidades do homem, jamais esgotadas e continuamente agônicas no tempo, pois a cada escolha uma possibilidade se cumpre e outras são sacrificadas. Existir é ser no mundo, onde o homem se encontra atirado e limitado, buscando realizar-se e tendo diante de si o nada. Mas é também a angústia que dá ao homem a verdadeira liberdade: aceitando a sua finitude, ele pode retomar o seu destino de modo diverso. 


Sartre fala da angústia do homem diante da sua responsabilidade para com toda a humanidade, pois cada escolha sua servirá de parâmetro para todos os outros homens, levando-o a questionar-se sobre a validade da mesma. Esta angústia, contudo, não paralisa como poderiam pensar alguns, pois ao homem só resta fazer, agir, visto que ele nada mais será do que o conjunto de seus atos, só existindo na medida em que se realiza.


Sartre se refere ao desamparo e abandono do homem, posto não haver valores pré-existentes, para que ele possa orientar-se nas suas escolhas, nem desculpas para as mesmas. Ele se torna a sua lei, responsável por suas decisões. E na sua existência só poderá contar consigo mesmo, visto não haver uma natureza humana universal em que ele possa se basear, ou uma possibilidade fora de si a que possa apegar-se. Daí a frase “O homem está condenado a ser livre”. Condenado, porque se viu atirado na sua condição humana, não a criou; e livre, porque, uma vez no mundo, é projeto de si mesmo.


A liberdade para o existencialismo é, pois, diferente da liberdade na concepção clássica, que corresponde ao livre-arbítrio, ao poder fazer ou deixar de fazer alguma coisa. Para o existencialismo, a liberdade é mais complexa, compreendendo não só a capacidade de decidir sobre a própria vida, como também de responsabilizar-se por ela, estando ainda limitada pelas regras sociais e pelas situações-limite da existência humana (o sofrimento, a morte e a intersubjetividade).


Buber, na sua Filosofia do Diálogo, coloca o homem não como pura interioridade, mas como abertura, saída para o outro, sendo este outro a própria condição de existência do ‘eu’. Ele destaca duas atitudes distintas do homem face ao mundo, dois modos diferentes de existir e apreender a realidade, que instalam uma diferença ontológica no outro pólo da relação: EU-TU e EU-ISSO. A primeira constitui a relação “par excellence”, o encontro de dois parceiros na reciprocidade e na confirmação mútua, onde ocorre a doação do ser como TU ao EU, que o aceita. Ambos estão presentes e unidos na totalidade da relação, onde vigora o poder de decisão, responsabilidade e disponibilidade para o encontro com o outro. 


O relacionamento EU-ISSO diz respeito à experiência e à utilização objetivantes do outro: o EU, como sujeito de conhecimento, faz a apreensão do ser como objeto. O ISSO está presente ao EU, mas o EU não está na presença do ISSO, visto que o outro não é encontrado como outro em sua alteridade.


Estas são para Buber as duas possibilidades do ‘eu’ revelar-se como humano, como ser relacional e sua ontologia da relação encaminha-se para uma ética do inter-humano. A ele se junta Gabriel Marcel, ao ressaltar o valor da comunhão interpessoal. Ser é ‘ser com’, onde o outro se torna para o ‘eu’ um verdadeiro ‘tu’, nada estando perdido para aquele que vive um relacionamento humano autêntico. 



- Parte II: A Psicologia Humanista-Existencial


2.1.  A Síntese Humanismo-Existencialismo:

Pelo que já foi apresentado, podemos concluir que estas duas grandes correntes do pensamento humano, o humanismo e o existencialismo, possuem alguns pontos de convergência e outros tantos de divergência. Procuremos melhor examinar esta questão para compreendermos como se deu a síntese de ambas na composição das premissas básicas da Psicologia Humanista-Existencial.


 Ponto pacífico entre essas correntes consiste na colocação do homem como fonte e centro de valores. Ambas se posicionam igualmente contra os sistemas materialistas, naturalistas ou deístas, que de alguma forma subjugam o ser humano com um determinismo externo a ele, a sua própria vontade, seja o seu destino determinado pela história, pelo biológico ou pelo transcendente. Ao contrário, tanto o humanismo quanto o existencialismo enfatizam a capacidade do homem de fazer-se a si mesmo através das suas escolhas, focalizando o seu potencial para crescer e realizar-se além do seu estado atual.


O humanismo, entretanto, coloca o homem como um fim, com o que o existencialismo não concorda, alegando que o homem não pode ser um fim, visto que ele não é algo acabado e está sempre em formação. O humanismo traz um acento incontestavelmente otimista quanto à natureza do homem, que seria construtiva, sustentando uma concepção de essência ou potencial humano, que vai além da sua existência. Já o existencialismo, encarado muitas vezes como uma doutrina austera e exigente, chama a atenção para o absurdo, o desespero e a angústia da condição humana, ressaltando a responsabilidade do homem por si próprio.


Cremos haver uma razão histórica e cultural para tal disparidade de enfoque. Os povos da Europa, onde o Existencialismo nasceu e mais força ganhou, vivenciaram ao longo da sua história inúmeras guerras de disputa pelo poder e epidemias, além de terem sido o palco e os personagens das principais cenas de destruição da primeira e da segunda guerra mundiais, sentindo na própria pele as suas conseqüências, o que compreensivelmente levou-os a uma série de questionamentos sobre a existência humana de cunho mais realista e duro. Por outro lado, a América, onde mais terreno encontrou o humanismo para germinar vindo da Europa, foi desde a sua descoberta considerada o Eldorado dos sonhos, o Novo Mundo a oferecer a cada homem sua possibilidade de expansão, riqueza e realização, atingindo um ponto alto de desenvolvimento econômico no período após a segunda guerra mundial.


A junção das duas correntes ocorre mediante o reconhecimento do caos, desespero e desamparo do homem no mundo, onde toda responsabilidade cabe a si próprio, e a reafirmação da crença no potencial humano para transformar-se e buscar sua plena realização, apesar de todos os obstáculos encontrados na sua existência. O humanismo torna-se, portanto, mais realista e o existencialismo, mais afirmativo com relação ao homem.


2.2.  A Terceira Revolução na Psicologia:

Vamos tentar mostrar agora como se deu o renascimento do humanismo na Psicologia, em oposição a que ele surgiu e as mudanças de perspectiva que foram por ele introduzidas neste campo. 


Na opinião de Floyd Matson, podemos no decurso do século XX distinguir três revoluções conceptuais dentro da Psicologia. O Behaviorismo constituiu a primeira destas revoluções, opondo-se à Psicologia do século XIX com relação à ênfase por ela dada à consciência como campo de estudo, e à introspecção como método de estudo deste mesmo campo.


Para Watson, o conceito de consciência encontrava-se impregnado de concepções místicas e mágicas, correspondendo à alma das superstições medievais e não sendo, portanto, merecedor de crédito pela ciência. Proclamou a ruptura da Psicologia com a filosofia dualista (corpo/alma), na tentativa de, banindo o subjetivo sob os termos de sensação, percepção, pensamento e emoção, instaurar a Psicologia como ciência nos moldes materialista, mecanicista e determinista, ou seja, nos moldes das ciências naturais, sobretudo da Física. E a mente referia-se ao extra-natural, devendo, portanto, a sua noção ser rejeitada pela Psicologia, ficando esta com o que fosse passível de ser estudado objetivamente, observado e medido – o comportamento manifesto do homem visto apenas como uma espécie do mundo animal dentre outras, sem nada possuir de distintivo básico.


A proposta era de estudar o homem como os outros animais eram estudados, onde se pode observar a estreita ligação do Behaviorismo com a Psicologia animal. A preocupação básica era a de prever e controlar o comportamento, entendido como a atividade do organismo como um todo, havendo um interesse declarado pelas aplicações práticas deste conhecimento. O objetivo consistia em alcançar uma compreensão do funcionamento da máquina humana para poder alterá-la.


Determinando-se o estímulo (S) como provocador da resposta (R), poder-se-ia condicionar uma resposta ao associar-se um outro estímulo (So), anteriormente neutro, a aquele já conhecido, fazendo-o provocar a mesma resposta (R). Seria através do processo de aprendizagem via condicionamento que se constituiria toda a personalidade de um indivíduo, o seu sistema de comportamento.


A segunda revolução coube à Psicanálise, que eclodiu mais ou menos contemporaneamente ao Behaviorismo, fazendo também oposição à Psicologia tradicional e ao papel da consciência no psiquismo humano. Para Freud, o homem era basicamente um animal de instintos, sendo governado por forças cegas que habitavam em seu interior. Destacou dois instintos básicos – o de vida (Eros) e o de morte (Tânatos), que constituiriam duas forças inexoravelmente opostas e continuamente em conflito no indivíduo, colocando-o, além disso, em conflito com a sociedade, devido à repressão que as regras sociais exigiriam dos seus instintos naturais. Pois, caso estes alcançassem livre expressão, o homem se converteria no lobo do próprio homem, visto que os instintos, que possuiriam uma fonte biológica no organismo, teriam sempre como objetivo o alívio da tensão através de uma máxima gratificação, sem levar em conta a realidade externa ou o bem comum social.


Não havia, portanto, para Freud solução permanente possível para o homem dentro desta situação de duplo conflito, posto que os instintos jamais seriam vencidos, podendo ocorrer apenas compromissos de ajustamento temporários. O ego nunca chegaria a um estado de autonomia, funcionando sempre na tentativa de conciliação entre as exigências do id (instintos) de um lado, e as do super-ego (cultura introjetada) do outro lado. O indivíduo teria, assim, no seu processo de vida o seu equilíbrio interno constantemente abalado, o que o levaria a constante busca de uma homeostase (reequilibração) interior, conseguida por meio de periódicas descargas de tensão.


Como podemos observar, estas duas revoluções possuem características em comum. Tanto uma como outra rechaça a razão como determinante da personalidade e do comportamento humano, colocando o homem, segundo Allport, como “vítima-expectador” de forças que atuam nele e através dele, ao preço da sua volição. Ambas as revoluções se apresentam, portanto, com um caráter marcadamente determinista, variando quanto à fonte deste determinismo, que para Watson seria ambiental e, para Freud, biológica. Ou seja, o fator controlador do comportamento seria respectivamente os estímulos externos ou internos, estes sob a forma de instintos. A Psicologia fica assim reduzida quase que ao estudo do comportamento irracional do homem, aproximando-se mais de uma Psicologia animal, do que de uma Psicologia dos seres humanos, no que eles possuem de único e particular – a consciência.


A terceira revolução chega com a Psicologia Humanista-Existencial e vem para resgatar o humano, fazendo oposição ao Behaviorismo e à Psicanálise ortodoxa. Constitui-se a partir da convergência de várias linhas de pensamento e abordagens terapêuticas, tendo como ponto básico de concordância a visão do homem como pessoa, merecedora de respeito tanto pela sua identidade e valores particulares, como pela sua capacidade de criação, escolha e responsabilidade para consigo e para com os outros. Do homem-espécie passa-se ao homem-indivíduo, este sim abarcado em sua totalidade, como possuidor de um impulso inerente para a realização de suas potencialidades, impulso este que, ao contrário de levá-lo à busca da homeostase, lança-o à procura incessante de metas criadoras. E em nome destas metas o indivíduo mostra-se inclusive capaz de aceitar certo aumento de tensão.


O homem deixa de ser visto como abrigando em seu interior duas tendências irremediavelmente opostas, em conflito, para ser encarado como constituído por uma única e fundamental força, desenvolvida ao longo da sua existência – a tendência para a auto-realização, que passa a ser a meta humana básica. Juntam-se neste movimento os neo-freudianos dissidentes da psicanálise ortodoxa, culturalistas e existenciais (Adler, Jung, Rank, Sullivan, Biswanger, Rollo May, Erich Fromm), e Maslow, Allport, Goldstein, Henry Murray, Charlotte Bühler e Carl Rogers.


A partir da ênfase sobre a pessoa, conclui-se a importância do outro no desenvolvimento e crescimento permanentes do indivíduo. O ‘eu’ se faz na presença do outro. Fala-se, então, da intersubjetividade, do diálogo, do encontro genuíno, da comunhão autêntica. E nova luz é lançada sobre um tipo particular de relação – a relação terapêutica. O terapeuta despoja-se de sua indiscutível autoridade e impenetrabilidade, e torna-se um participante ativo. Usando os termos de Buber, a relação terapêutica deixa de ser um relacionamento EU-ISSO e passa a uma relação EU-TU, onde tanto o cliente como o terapeuta encontram-se presente como pessoas num processo de troca e crescimento. O terapeuta é aquele que ajudará o indivíduo a descobrir-se e dirigir-se no sentido de seu crescimento, auto-regulação e conseqüente socialização. 


A Psicologia Humanista surge também como resposta a toda uma busca de significados para a existência humana, no momento em que os valores tradicionais são colocados em xeque diante dos próprios fatos presenciados no desenrolar da história. Ao contrário das expectativas, depois da primeira, veio a segunda guerra mundial, mostrando que os homens não haviam refletido e reformulado coisa alguma com a experiência da primeira grande guerra. Colocou-se em dúvida o próprio progresso da humanidade, indagando-se mesmo qual seria o seu futuro e se este não acabaria com a autodestruição do homem. E, possivelmente, estas perguntas ainda eram feitas, quando se deflagraram as guerras da Coréia e do Vietnã.


Notícias sobre estados de miséria e fome entre os povos do Terceiro Mundo espalharam-se em proporção cada vez maior, reduzindo-se sempre a denúncias vazias, uma vez que nada é feito para mudar tal estado de coisas. Na grande sociedade, expande-se um processo de despersonalização e dessensibilização dos indivíduos, que se tornam nela dissolvidos e massificados, levando-os a uma desesperada busca de identidade e de fé. 


Desenvolve-se dia a dia um mundo esquizóide, que Rollo May tão bem definiu e a que os indivíduos reagem de diferentes maneiras. Há aqueles que, reafirmando continuamente os seus valores, atuam no sentido de manter a presente situação, estáticos em seus posicionamentos frente à vida, aos outros e a si próprio. Um outro grupo de indivíduos parte para o questionamento do nosso mundo e dos valores vigentes, seja rejeitando esta sociedade como ela se apresenta e dela se isolando, seja nela permanecendo e lutando por reformas, ou simplesmente proclamando a libertação de tabus, sobretudo daqueles que giram em torno da sexualidade.


 Outro grupo ainda há que, partindo do questionamento, procura novas soluções, aceitando a ajuda daqueles em quem sentem que podem confiar. Deste último grupo aproxima-se em proposta a Psicologia Humanista-Existencial. Cada homem é visto e aceito em sua singularidade e acompanhado em seu mergulho na própria interioridade – condição sine qua non para o encontro de si mesmo e para o seu crescimento.



Conclusão:


Vimos como o movimento da Terceira Força, que ora ganha tanto vigor no âmbito da Psicologia, abrangendo também áreas circunvizinhas a ela, deita suas raízes na cultura grega, atravessando séculos na caminhada da nossa civilização até chegar ao momento atual.  Digamos que ele, em parte, retoma aquele humanismo antigo, ou dele mantém as premissas básicas, constituindo-se, por outro lado, de características próprias decorrentes do desenvolvimento histórico e da própria evolução do homem, no tocante as suas idéias e sentimentos com relação a si mesmo e à humanidade.


O humanismo atravessou uma fase de grande euforia e descoberta da sua criatura, aprofundando a experiência da sua riqueza e potencialidade criadora, e se tornando paulatinamente mais exigente e realista com ela, mantendo, contudo, o seu voto de confiança. É esse humanismo mais amadurecido que inspiramos agora. 


Retomamos o debate entre educação técnica e educação humanista, entre ciência e filosofia, ao percebermos que, antes de formar o cientista ou o técnico, devemos preocupar-nos com a formação do homem, para que suas descobertas e criações se apliquem ao desenvolvimento de todos os homens e de cada homem em particular. Só assim será possível construirmos uma sociedade verdadeiramente humana, onde a ciência e a técnica sejam utilizadas como instrumento em prol da expansão do homem e não vice-versa, como lamentavelmente podemos em muitos casos observar.


Cremos que, a partir deste rápido mergulho no humanismo e no existencialismo, poderemos também compreender os nossos clientes em suas crises existenciais, em suas indagações e buscas de significados, em seus questionamentos de valor sobre suas vidas e seus relacionamentos, bem como apreendermos sua complexidade e riqueza interiores, e nos maravilharmos com o seu árduo, porém gratificante processo de crescimento.



- Referência Bibliográfica:


- BUBER, Martin (1979). Eu e Tu. São Paulo: Cortez e Moraes.

- GREENING, Thomas (1975). Psicologia Existencial-Humanista. R.J.: Zahar.

- HEIDBREDER, Edna (1975). Psicologias do Século XX. S.P.: Mestre Jou.

- MADDI, R.S(1972). Teorias de la Personalidad – un analisis comparativo. Buenos Aires: El Ateneo.

- NOGARE, Pedro Dalle (1983). Humanismos e Anti-Humanismos. Petrópoles: Vozes.

- SARTRE, Jean-Paul e FERREIRA, Vergílio (1970). O Existencialismo é um Humanismo. Lisboa: Editorial Presença.

- SCIACCA, Michele F. (1968). História da Filosofia. Vol. III. S.P.: Mestre Jou.

 
 
 

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