O Transpessoal e a Psicologia Humanista
- brandaolenise
- 4 de ago. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de jan. de 2025
A Psicologia Humanista é conhecida como o movimento da 3ª Força na Psicologia, sendo seguida pela Psicologia Transpessoal, correspondendo esta à 4ª Força na Psicologia. Vamos procurar entender um pouco melhor como se desenvolveu a sequência desses movimentos.
Em primeiro lugar, percebemos que muitos teóricos e estudiosos, que fizeram parte ou são mencionados como precursores do movimento da 3ª Força, também são apontados como antecessores, influenciadores ou participantes ativos do movimento da 4ª Força. Entre eles podemos citar William James com os seus estudos sobre “As Variedades da Experiência Religiosa” e sobre o fluxo da consciência humana. Podemos mencionar Ken Wilber, presente no lançamento do movimento da Psicologia Humanista, que também contribuiu significativamente para a Psicologia Transpessoal com seus estudos sobre a evolução da consciência e as religiões no Oriente e no Ocidente. E não poderíamos deixar de citar Carl Jung, considerado como precursor de ambos os movimentos com seus conceitos de arquétipo, inconsciente coletivo, self e sincronicidade, apontando para dimensões transcendentes da consciência humana.
Contrapondo brevemente esses dois movimentos, podemos dizer que a Psicologia Humanista se centra no desenvolvimento da pessoa como indivíduo, nas suas possibilidades de crescimento através da atualização de suas capacidades e habilidades durante a sua vida. Esse processo está ancorado em sua consciência ordinária, permitindo-lhe dar-se conta de sua existência e de seu processo de vida, realizar escolhas, tomar decisões e usar a sua criatividade na busca e na construção de uma nova maneira de ser e de viver, que seja mais plena e gratificante para si. A Psicologia Transpessoal amplia o foco além da pessoa, do indivíduo em seu contexto existencial aqui e agora para cada consciência em seu processo evolutivo transpessoal, o que envolve inexoravelmente a sua espiritualidade e transcendência, ou seja, uma expansão da consciência para a compreensão de outros níveis e de outras dimensões da realidade.
A própria visão de ser humano se expande. Na Psicologia Humanista, ele é concebido como um organismo, corpo e mente funcionando de forma integrada e reagindo como uma totalidade à realidade. Já a Psicologia Transpessoal concebe o ser humano como constituído por corpo, mente e espírito, adicionando, portanto, a dimensão espiritual em interação com o corpo físico e a mente. Além disso, o corpo humano é concebido como formado por matéria e energia.
A partir dessa exposição, fica mais fácil compreender a movimento natural de alguns estudiosos de um foco para o outro. Podemos perceber esse movimento inclusive em Carl Rogers, que foi considerado um dos grandes inspiradores da 3ª Força na Psicologia. Ao evoluir em sua teoria e em sua prática da psicoterapia individual para o trabalho com grupos, sobretudo com grandes grupos e comunidades autodirigidas, Rogers começou a observar estados alterados de consciência no funcionamento desses grupos, quando o grupo como uma totalidade orgânica parecia mover-se com uma sabedoria além da consciência racional de seus participantes individuais. Essas vivências em grupo, somadas ao seu avanço na idade e ao inevitável confronto com a sua própria finitude, a doença e a morte de sua esposa, além de experiências paranormais, levaram Rogers a questionamentos e buscas acerca da espiritualidade, de outras dimensões da consciência e da existência após a morte, isto é, do que haveria além da pessoa.
Na relação terapêutica com o cliente, Rogers passou a vivenciar e a escrever sobre um estado de consciência em que ambos fluíam juntos e em total sintonia, de um modo intuitivo e transcendente, ensejando momentos significativos no processo de mudança do cliente. Dessa forma, as suas produções escritas e os seus interesses na sua última fase de vida demonstram a emergência de temas característicos e caros à Psicologia. Outros profissionais da abordagem também focalizaram e escreveram sobre estes momentos, como Maria Bowen e Antônio dos Santos.
Podemos ainda observar a mudança de paradigma científico em Rogers, quando ele amplia o conceito de Tendência Atualizante, presente nos seres vivos, para Tendência Formativa, atuante em todo o cosmo, citando estudos de cientistas que se tornaram referência no novo paradigma holístico.
Sua filha, Natalie Rogers, ao desenvolver a abordagem da Terapia Expressiva no trabalho com grupos, começou também a observar vivências de estados alterados de consciência nessas práticas, relatadas pelos participantes, além dela própria vivenciar esses estados. Concluiu, então, que as artes expressivas podiam funcionar como poderosas ferramentas na facilitação de processos de crescimento pessoal e de ampliação da consciência para além do pessoal.
De modo semelhante, após a minha formação como psicoterapeuta na Abordagem Centrada na Pessoa – uma das representantes da Psicologia Humanista, e após mais de uma década de prática clínica, comecei a voltar o meu interesse para a área de psicossomática na perspectiva da saúde holística. Ao buscar curso de mestrado nesta temática, encontrei-o apenas em uma universidade dos EEUU voltada para os estudos transpessoais. E assim mergulhei na 4ª Força – experiências transpessoais, religiões no Oriente e no Ocidente, estados de consciência, habilidades extrassensoriais, sonhos, estudos sobre meditação, técnicas de trabalho com imagens, as artes expressivas como ferramentas de expansão da consciência, as medicinas ayurvédica e chinesa, as interações corpo-mente-espírito no adoecimento e na cura, abordagem transdisciplinar na saúde, etc.
A 4ª Força me proporcionou uma ampliação e um aprofundamento de visão, o que enriqueceu significativamente a minha prática clínica, sobretudo no campo da Psico-0ncologia, além de contribuir para a minha evolução pessoal e para a evolução da minha consciência. A 3ª Força continua presente na acolhida, na minha escuta e na compreensão empática das pessoas que a mim chegam solicitando ajuda, funcionando como a base da minha abordagem terapêutica fenomenológico-existencial.
Para mim, o caminho da 3ª para a 4ª Força foi, portanto, uma transição natural, não linear, mas em espiral, em que levo comigo aspectos relevantes da Psicologia Humanista, agregando contribuições significativas teóricas e práticas da Psicologia Transpessoal, algumas das quais representam um salto qualitativo em amplitude e aprofundamento.
Algumas leituras:
- Um Jeito de Ser – Carl R. Rogers, da E.P.U.
- Quando Fala o Coração – Antônio M. dos Santos, Carl R. Rogers e Maria C.V.B. Bowen, de Artes Médicas.
- Tornar-se Transpessoal – Elias Boainain Jr., da Summus.
Comentários