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O Câncer Ontem e Hoje

  • brandaolenise
  • 26 de ago. de 1999
  • 3 min de leitura

Atualizado: 4 de ago. de 2024

A palavra ‘câncer’, originária do grego karkinos e do latim cancer, que significam caranguejo, foi designada pelo médico Galeno para esta doença, devido à semelhança entre as veias intumescidas de um tumor e as pernas de um caranguejo.


Se nos voltarmos para a Antiguidade Clássica, encontraremos lado a lado uma concepção leiga e outra médica sobre a doença. De acordo com a primeira, a doença era vista como um castigo dos deuses. Por outro lado, Hipócrates, considerado o pai da medicina, desenvolveu a concepção de que a doença corresponderia a um desequilíbrio nos humores corporais em decorrência das influências do ambiente, do temperamento e do comportamento da pessoa.


A Idade Média caracterizou-se como o período da demonologia e, em função do domínio da Igreja, a doença passou a ser concebida como resultado de possessão pelo demônio. Além disso, foi reforçada a ideia da doença como castigo, merecido e justo, a ser aceito com resignação. O sofrimento seria uma forma de se redimir de atitudes imorais e viciosas.

Com o advento da Idade Moderna, a queda do domínio da Igreja possibilitou avanços na ciência, sendo a doença, então, concebida como algo externo que atingia a pessoa, sem a sua participação, causando a desordem em seu organismo.


No Brasil do início do séc. XX, temos a imagem do câncer como um bicho que vai devorando tudo no corpo da pessoa, destituindo-a de suas forças e de sua dignidade. Havia também, e ainda há, a ideia do câncer como uma doença contagiosa, levando a procedimentos de descontaminação de objetos e de isolamento da pessoa doente. O câncer era chamado frequentemente de ‘doença ruim’ ou ‘daquela doença’, evitando-se pronunciar o seu nome. E o fato dele ser descoberto, por vezes, em estágio avançado reforça essa concepção negativa, levando-o a ser encarado como uma sentença de morte. Atualmente, o tumor é, por vezes, ainda percebido como se possuísse energia própria e estivesse fora do controle da pessoa e dos profissionais.


Nas primeiras décadas do séc. XX, foi enfatizado o papel dos distúrbios psicológicos no adoecimento físico. O câncer começou a ser associado à repressão de sentimentos e emoções, o que gerou mais preconceitos em relação ao doente de câncer, passando este a ser visto como uma pessoa reprimida e frustrada, como um perdedor.


Desta forma, ao saber que está com câncer, a pessoa tende a esconder a sua doença dos vizinhos, parentes e colegas de trabalho numa tentativa de preservar a sua imagem. Sente que a comunicação do câncer poderia colocar em risco a sua vida sentimental, profissional e social. A ideia do câncer como uma doença de mau presságio faz com que a pessoa receie o olhar e o afastamento dos outros.


Por outro lado, constrói-se, muitas vezes, um universo de ‘faz-de-conta’ em torno da pessoa com câncer, universo esse alimentado pelos familiares e, às vezes, pelos profissionais, aumentando o isolamento da pessoa doente e as fantasias em relação à gravidade da doença. Esse isolamento acaba, por vezes, atingindo também os familiares, que se privam, assim, de receber ajuda de terceiros. A ocultação ou a distorção da realidade da doença ao paciente oncológico tende a dificultar mais ainda a comunicação no grupo familiar, em termos de expressão e compartilhamento de sentimentos e vivências, e no tocante à tomada de decisões. 


Diante dessa trama engendrada ao longo dos séculos, não é de se estranhar a pergunta que a pessoa se faz, quando recebe o diagnóstico de câncer: - ‘Por que eu?!’


A Psico-oncologia surge e atua nesse cenário complexo com a proposta de ajudar na reorganização da pessoa e de sua família frente à doença e aos tratamentos, possibilitando também um suporte aos profissionais, além de buscar com estes uma visão mais ampla, profunda e humana da doença.


Torna-se imperativo rever velhas concepções e desfazer preconceitos, permitindo que o câncer se torne apenas mais uma doença.


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