O Cliente e Seu Corpo em Terapia
- brandaolenise
- 4 de ago. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 11 de jan. de 2025
No Ocidente, traçamos uma dualidade entre a mente, localizada em algum lugar no cérebro, e o corpo, que se move abaixo dele. Este dualismo mente x corpo está refletido em todas as nossas instituições, em processos culturais e, também, nas formações e práticas dos profissionais da saúde. Vejamos brevemente como este dualismo se instalou.
A ênfase dada ao pensamento racional em nossa cultura está sintetizada no enunciado de Descartes – “Penso, logo existo”, levando as pessoas a equipararem sua identidade com a sua mente racional e não com o seu organismo total. Retiramo-nos assim para as nossas mentes e esquecemos como usar nossos corpos como fonte de conhecimento.
A cabeça e o rosto compõem a máscara que apresentamos ao mundo, servindo para o contato e a comunicação mais do que qualquer outra parte do corpo. Em nossa cultura, a cabeça e rosto não são usualmente cobertos, diferentemente do resto do corpo, que se torna mais privado e, do qual, a maioria de nós têm menos consciência. O corpo, esse desconhecido, corresponde ao nosso aspecto emocional, instintivo e que julgamos erroneamente ser menos criativo. O dualismo corpo x mente se desdobra em emoção x razão, intuição x pensamento lógico, chegando aos dualismos natureza x ser humano e espírito x matéria.
Essa divisão entre espírito e matéria levou à concepção do universo como um sistema de objetos separados, regidos por leis mecânicas. E essa concepção foi estendida aos organismos vivos, considerados como máquinas formadas por peças que se justapõem. As consequências adversas desse reducionismo tornaram-se especialmente evidentes na medicina convencional do Ocidente.
Desde o século XVII, a Física tem servido de modelo para todas as outras ciências, utilizando-se durante três séculos desta visão mecanicista do mundo, baseada na filosofia de Descartes e nas leis matemáticas de Newton sobre os movimentos no universo. No século XX, entretanto, a Física começou a passar por revoluções conceituais, apontando para uma visão orgânica, ecológica, holística do universo, visão esta que se assemelha grandemente às visões dos místicos orientais e, também, da igreja ocidental na Idade Média. Deste modo, o universo passou a ser visto novamente como um todo harmonioso e indivisível, com uma rede dinâmica de relações em movimento contínuo, que tudo engloba e tudo afeta de um modo ou de outro.
Os psicólogos, ao tentarem ser definidos e aceitos em seus conhecimentos e em suas práticas como científicos, buscaram aplicar conceitos da Física newtoniana à Psicologia e, sob a influência da dicotomia cartesiana, adotaram a divisão entre corpo e mente, o que dificulta ainda hoje a compreensão da interação entre a mente e o corpo. Embora a maioria de nós, psicólogos, concorde que sentimentos, atitudes e experiências afetam as condições e o funcionamento do corpo, não há conhecimento do quanto e de como essas influências ocorrem. Dessa maneira, muitos psicólogos não associam atitudes e experiências de seus clientes a sintomas e doenças em seus corpos.
Entretanto, a cada dia a neurociência nos mostra mais e mais como nossos sentimentos e atitudes afetam diretamente o modo como nos movemos e respiramos, e vice-versa. O corpo se forma de acordo com os sentimentos que são vividos nele e esses sentimentos podem tornar-se aprisionados dentro do próprio corpo. Por outro lado, o cérebro recebe continuamente mensagens do que se passa no corpo, sobretudo, do estado emocional do corpo, que irá afetar nossos processos cognitivos, nosso humor e nosso comportamento.
O corpo revela a história pessoal de cada um, corporificada em ligamentos e músculos, expressa na postura e na maneira de caminhar. O corpo é a personalidade manifesta e pode ser analisado tanto como a mente, com a diferença que o corpo não mente, enquanto as palavras frequentemente o fazem. Qualquer que seja o sentimento é também expresso corporalmente e, se vivenciado repetidas vezes, pode tornar-se uma maneira da pessoa se conduzir, através de um padrão muscular fixo e de uma atitude definida em relação à vida. Estas atitudes e padrões musculares fixos intensificam-se e se sustentam mutuamente. O corpo se adapta ao que a mente acredita e o coração sente. Entretanto, o que é sentido no corpo também molda o que a mente percebe e acredita.
Nosso corpo somos nós. Somos o que parecemos ser, embora muitas vezes não tenhamos coragem de olhar ou não saibamos como fazê-lo. Confundimos o visível com o superficial, quando, na realidade, o visível está conectado ao invisível. Ao acharmos que a essência se esconde atrás da aparência, só nos interessamos pelo que não podemos ver. E passamos a vida interpretando conteúdos e estruturas psicológicas, realizando malabarismos lógicos com as palavras, sem nos perguntarmos das sensações do próprio corpo, que permanece desconhecido enquanto fala e, às vezes, até grita!
O corpo de uma pessoa, seu comportamento, sua personalidade, seus movimentos, sua postura, sua fala, suas atitudes, sonhos e percepções são partes de um todo indivisível, expressões de seu íntimo. Todas essas expressões estão interrelacionadas, o que significa que você não pode modificar uma sem influenciar as outras.
Como podemos, então, abarcar e lidar com o corpo na psicoterapia fenomenológico-existencial?
Carl Rogers, desde o início de suas elaborações teóricas, chamava a atenção para a concepção do ser humano como uma totalidade, aí estando incluído o seu organismo. Salientou a necessidade de consciência e organismo, mente e corpo funcionarem de forma integrada, em comunicação livre e direta no ser humano, colocando este aspecto como uma condição do ‘funcionamento pleno’ da personalidade. Para tanto, falava do ‘processo de avaliação organísmica’, em operação contínua dentro do indivíduo, avaliando cada uma de suas experiências segundo os critérios de preservação e expansão do seu ser como uma totalidade.
Eugene Gendlin, colaborador de Rogers, enfatizou e desenvolveu mais ainda esta visão, frisando a importância de focalizarmos a ‘sensação sentida’ (felt sense) durante o processo terapêutico, ou seja, a sensação corporal da experiência vivida pelo cliente, como única forma de promovermos um movimento de mudança em sua personalidade.
Em suma, a experiência não é apenas um fenômeno cognitivo, mental, intelectual. É também, e primordialmente, um fenômeno corporal, passível de ser apreendido pela nossa consciência. Ao facilitarmos o processo terapêutico do cliente, chamando a sua atenção para as suas sensações corporalmente sentidas em uma determinada experiência, estamos envolvendo e abordando o corpo do cliente nesse processo, estamos ajudando-o a restabelecer aquela comunicação direta com o seu próprio ser, que é também corpo.
Outra maneira do corpo fazer-se presente no processo psicoterapêutico é através da sua linguagem – a postura, os gestos e os movimentos, as expressões faciais, que na grande maioria das vezes não fazem parte do campo perceptual do cliente. São contraturas crônicas de músculos, gerando posturas ‘engessadas’, gestos mecânicos, expressões faciais ‘congeladas’. Há também os sintomas físicos, que falam, gritam sem que o cliente os ouça. Chamar a atenção, espelhar fisicamente para o cliente, quando possível, refletindo sobre o significado desses sinais, facilita a reconfiguração do seu campo experiencial e a ampliação da sua percepção de si mesmo. Vale a pena lembrar que a imagem, que uma pessoa tem de si mesma, inclui também o seu corpo, é também uma imagem corporal.
Entretanto, só na medida em que nós, psicoterapeutas, nos tornarmos receptivos e ouvirmos o nosso próprio corpo, poderemos perceber o cliente em sua integralidade, perceber o seu corpo e compreender o que esse corpo está nos falando dessa pessoa, de sua maneira de ser e de funcionar no mundo nesse momento. Em vez de uma terapia meramente intelectual, em que interagem duas cabeças, teremos uma terapia entre duas pessoas, ambas integralmente presentes. Para que nós, psicoterapeutas, possamos estar presentes com o nosso próprio corpo na relação com o cliente, precisamos nos aproximar e nos reconectar com esse corpo, seja através de alguma prática corporal como relaxamento, meditação, yoga, t’ai chi, seja através da dança ou da técnica de focalização (focusing).
Temos nós, psicólogos, uma tarefa trabalhosa, mas altamente gratificante pela frente. A tarefa de nos descondicionarmos da visão dualista e racional de nossa cultura e nos reintegrarmos com esse desconhecido – o corpo, que nos acompanha todo o tempo, sendo na maior parte do tempo ignorado, tendo a nossa atenção apenas quando sentimos dor ou outro incômodo físico, ou quando estamos descontentes com a sua aparência, aborrecidos com o problema que ele está causando a nós. Então, para começar, como está o seu corpo?
Algumas leituras:
O Corpo Tem suas Razões – Thérèse Bertherat, da Martins Fontes
O Corpo Revela – Ron Kurtz e Hector Prestera, da Summus
Corpomente – Ken Dychtwald, da Summus
O Corpo em Terapia – Alexander Lowen, da Summus
O Ponto de Mutação – Fritjof Capra, da Cultrix
Focusing, Proceso y técnica del enfoque corporal – Eugene Gendlin, da Mensajero
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