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As Tradições Curativas da Pré-História

  • brandaolenise
  • 4 de ago. de 2024
  • 5 min de leitura

Atualizado: 29 de set. de 2024

Podemos facilmente encontrar algumas limitações na reconstrução e no entendimento da medicina no período pré-histórico, dificultando o seu conhecimento.


Primeiramente, a história é geralmente escrita por pessoas que pertencem a um grupo dominante ou que compartilham com esse grupo a ideologia e a visão da realidade dominantes. Consequentemente, a história é com grande probabilidade a história de um determinado grupo humano, sendo distorcida e tendo alguns fatos negados para estar de acordo com os interesses desse grupo, que geralmente procura manter seu poder em tal sociedade.


Além disso, a probabilidade de distorção da história é maior, à medida que retrocedemos mais no tempo, devido às dificuldades de transmissão de informações e de conhecimento entre linguagens e cosmologias diferentes. Isto implica um possível erro na interpretação dos dados empíricos. Essa interpretação tende a ser temporocêntrica, influenciada por alguns preconceitos. Por exemplo, pelos parâmetros de nossa medicina ‘científica’, materialista e empírica, nós percebemos a medicina antiga como primitiva e mágica. Não podemos entender através de nossos conceitos e teorias racionais a maioria daquelas práticas. Desse modo, assumimos que os erros e as limitações pertencem a eles, não a nós.


Talvez a principal ideia que subjaz a essa atitude corresponda à concepção da civilização humana como uma evolução linear, da cultura mais simples àquela mais complexa, em vez de uma alternância entre idades de ouro e idades obscuras. Desse modo, tendemos a ver nossa sociedade e o nosso tempo como os mais avançados em termos de conhecimento e tecnologia, desqualificando as primeiras sociedades como se todas elas fossem pobres em suas produções e infantis em suas mentalidades. Pensamos que não podemos encontrar nada de valor nessas sociedades, apenas algumas estranhas curiosidades. 


Entretanto, se assumimos que algumas dessas primeiras sociedades e culturas mantinham uma visão da realidade mais ampla e profunda, com conhecimento e práticas avançados, que lidavam com o nível energético do universo e do ser humano, provavelmente será muito difícil encontrar dado empírico que lhes dê suporte. E, se acharmos esses dados, seremos capazes de reconhecê-los e extrair corretamente deles o conhecimento, visto que não podemos separar nossa percepção de nossa subjetividade?


Além disso, precisamos considerar os interesses econômicos e políticos dos grupos dominantes em nossa medicina tecnológica, composta por indústrias farmacêuticas, companhias de seguro saúde e as grandes empresas-hospitais e clínicas, todas elas estando de algum modo ligadas ou representadas nos departamentos do governo e nas agências reguladoras. É lógico que todo esse sistema trabalha para se manter no domínio da chamada medicina científica e de suas práticas, negando ou condenando qualquer outra medicina, cujos conhecimentos e práticas não compartilham aqueles interesses, nem alimentam o complexo político-financeiro.


Assim, qualquer medicina baseada predominantemente nos níveis energéticos da realidade e em recursos naturais, como parece que algumas medicinas da pré-história eram, não necessitando de suporte material complexo e caro para operar, está fora de consideração pelo establishment médico convencional como conhecimento e procedimento válidos. E, como os médicos convencionais são ainda vistos como os donos do conhecimentos médico, muitos grupos e pessoas em nossa sociedade simplesmente seguem seus julgamentos. Desse modo, os historiadores estarão praticamente sozinhos para validar seus dados e suas teorias ‘controvertidos’ relativos à medicina nos tempos pré-históricos.


Se você pensa sobre os fundamentos das práticas xamânicas, você pode notar que seria desejável que a nossa medicina tecnológica refletisse e absorvesse algumas dessas práticas para ganhar mais eficácia na prevenção de doenças e na recuperação da saúde.

Podemos mencionar, por exemplo, a estreita relação entre o xamã e o paciente, fazendo este último não se sentir sozinho em seus esforços para a saúde. O xamã demonstra estar pessoalmente preocupado com o paciente no processo de cura, procurando usar seu poder pessoal para facilitar que o paciente se empodere. Que grande diferença da atitude impessoal, ‘asséptica’ e ‘científica’ adotada pela maioria dos modernos profissionais da saúde!


Tocamos aqui em outro ponto importante: o poder pessoal é a base da saúde de qualquer pessoa, não apenas na dimensão psicológica, como o psicólogo americano Carl Rogers já havia assinalado, mas também na dimensão física, envolvendo ainda os aspectos espirituais da vida do paciente. Pesquisas recentes na área da psicossomática têm mostrado algumas interconexões entre essas três dimensões nos seres humanos, clarificando como aquelas práticas, chamadas de primitivas, funcionavam na recuperação da saúde do paciente.


Essas pesquisas têm enfatizado como fatores emocionais e crenças influenciam os processos de adoecimento e de cura, vistos como dois lado de uma mesma moeda, demonstrando ainda os efeitos de estados alterados de consciência sobre os mecanismos e sistemas do corpo humano. Entre as técnicas incluídas nessas pesquisas para promover esses estados, podemos citar alguns tipos de respiração e de relaxamento, a meditação e a visualização. Essas técnicas já são utilizadas como ferramentas importantes em programas de tratamento de doenças graves como o câncer e em outras doenças degenerativas ou crônicas, com efeitos positivos para os pacientes nos níveis físico, mental e espiritual.


Como consequência, de modo semelhante ao xamã, os modernos profissionais de saúde devem ser capazes cada vez mais de detectar aspectos psicológicos e espirituais ocultos, que estão afetando a saúde do paciente, ajudando-o a percebê-los e transformá-los, para que os mecanismos internos de cura possam trabalhar mais livre e efetivamente.


Por outro lado, podemos encontrar algumas semelhanças entre o xamã e nossos cientistas contemporâneos. Geralmente, ambos utilizam uma atitude de respeito e humildade diante dos mistérios do universo, reconhecendo a dimensão espiritual da realidade por diferentes caminhos. E, como o xamã, o cientista baseia seu conhecimento em suas experiências da realidade, procurando desenvolver suas práticas fora de qualquer influência política ou religiosa.


Em relação ao emprego da habilidade de clarividência nas prática de saúde, talvez alguns profissionais que tenham uma visão mais ampla e integrada da realidade, já a estejam utilizando naturalmente na relação com os pacientes, como outro modo de conhecimento que vem subitamente em suas mentes como pensamentos intuitivos, trazendo alguma informação, associação ou aviso importante com relação ao problema do paciente e a sua possível recuperação.


O desafio ao uso da clarividência mais abertamente como um método válido para diagnóstico e tratamento está na forte ênfase no pensamento racional e no dado empírico, que domina nossa visão da realidade, limitando nossa maneira de lidar com a saúde do paciente e de orientá-lo mais efetivamente em seu processo de cura.

Em suma, precisamos reintroduzir o intuitivo e o espiritual, utilizando-os juntamente com o racional, integrando as capacidades dos dois hemisférios cerebrais em nós mesmos, como pessoas e como profissionais, para avançarmos em nossas práticas de saúde. Desse modo, estaremos expandindo nosso quadro da realidade e nosso conhecimento sobre a enorme complexidade dos seres humanos, abarcando suas dimensões física, psicológica e espiritual com suas ricas interconexões nos processos de cura.


 
 
 

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