A Psicologia Humanista no Hospital
- brandaolenise
- 29 de set. de 2024
- 18 min de leitura
Trabalho apresentado no VII Encontro Latino-Americano da Abordagem Centrada na Pessoa (Alagoas – Brasil) em outubro de 1994.
Introdução
Há tanto o que refletir sobre o ser humano, não é mesmo? Principalmente em situações em que as pessoas sentem a sua vida de alguma forma ameaçada. Situações que se tornam por vezes angustiantes, mas que também podem proporcionar um momento de amadurecimento e crescimento.
Em um hospital geral lidamos com isso. Existem momentos difíceis, em que nos deparamos com a dor, com o inconformismo e a revolta, com o limite da vida. E outros em que nos gratificamos com a alegria da superação de dificuldades e a reafirmação da vida, ou a renovada determinação de luta. E outros ainda, em que a beleza se encontra em uma serena aceitação interior.
Tamanha riqueza de experiências está a espera que nós nos disponibilizemos a vivenciá-la em todos os seus matizes.
Busco nesse trabalho refletir e passar essa experiência adiante.
Faço inicialmente um apanhado histórico do desenvolvimento da Medicina, para que possamos entender suas principais limitações atuais, em termos da sua prática e da sua eficácia. A seguir, procuro mostrar como a Psicologia Humanista, especialmente a Abordagem Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl R. Rogers, pode contribuir para uma expansão e superação dessas presentes dificuldades.
Muito há o que se discutir. Vejo-me, entretanto, tendo que limitar essa exposição na expectativa de poder desdobrá-la em um segundo momento.
A Medicina no Paradigma Cartesiano-Newtoniano
De acordo com a visão do mundo antes do ano de 1.500, o universo era um todo orgânico, vivo e espiritual. A ciência medieval buscava a sabedoria, a compreensão da ordem natural e do significado das coisas, visando alcançar a vida em harmonia com o universo. Usando a terminologia da filosofia chinesa, seu objetivo era “fluir na corrente do Tao”. A ciência tinha propósitos “yin” ou integrativos.
Nos séculos XVI e XVII, esta visão foi sendo substituída pela noção do mundo como uma máquina e a atitude dos cientistas inverteu-se, passando de yin para yang, ou seja, para a autoafirmação, voltando-se para a predição e controle da natureza através de um novo método de investigação, apoiado na descrição matemática da natureza e no raciocínio analítico.
Essa mudança ocorreu como consequência de descobertas na Física e na Astronomia, Copérnico a Terra deixou de ser o centro do universo, tornando-se apenas um planeta entre outros. Galileu confirmou esta hipótese, transformando-a em teoria científica, sendo matemática na formulação das leis da natureza.
Ao enfatizar as propriedades quantificáveis da matéria, Galileu promoveu a exclusão dos aspectos qualitativos da experiência do domínio científico. Como bem se pronunciou Laing, “perderam-se a visão, o som, o gosto, o tato e o olfato, e com eles foram-se também a sensibilidade estética e ética, os valores, a qualidade, a forma; todos os sentimentos, motivos, intenções, a alma, a consciência, o espírito.” (1)
Enquanto isso, na Inglaterra, Bacon desenvolvia o método empírico da ciência, compreendendo a realização de experimentos, de onde se extrairiam conclusões, testadas por novos experimentos.
Descartes defendeu a ciência como domínio da verdade absoluta e o método científico como único meio válido de conhecimento do universo, desembocando o cientificismo característico de nossa cultura ocidental. Seu método analítico consistia na decomposição de um problema em suas partes, dispondo-a em ordem lógica. Tal método impregnou de tal forma o moderno pensamento científico que gerou a fragmentação das disciplinas acadêmicas e o reducionismo na ciência, fomentando a crença de que os fenômenos complexos podem ser compreendidos pela redução às suas partes constituintes.
Outra influência de Descartes sobre o pensamento ocidental foi a divisão entre matéria e mente, colocando a razão como único caminho válido para o conhecimento (“Cogito, ergo sum”), o que fez com que nós nos identificássemos com a nossa mente, com as nossas ideias, valorizando o trabalho mental como superior e dificultando a consideração dos aspectos psicológicos das doenças, tidas como doenças do corpo.
Descartes percebia o universo como uma máquina, funcionando de acordo com leis mecânicas. E estendeu essa concepção mecanicista aos organismos vivos – plantas, animais e ao corpo humano, comparando-o a um relógio. Ele explicava os movimentos e várias funções biológicas, reduzindo-as a operações mecânicas. O efeito negativo dessa concepção faz-se presente ainda hoje na Medicina, dificultando a compreensão de enfermidades importantes como o câncer e as doenças autoimunes.
Newton deu segmento às ideias de Descartes, formulando as leis gerais do movimento, abrangendo todos os corpos do sistema solar. O universo tornou-se assim um enorme sistema mecânico, movido por leis matemáticas exatas e imutáveis, de forma que qualquer fenômeno no sistema poderia a princípio ser previsto, posto que tudo teria uma causa definida e geraria um efeito definido dentro de um rigoroso determinismo. A Física newtoniana foi tomada como modelo e seus princípios aplicados às ciências da natureza e das sociedades humanas.
A concepção cartesiana dos organismos como máquinas ainda constitui a base da estrutura conceitual dominante na biologia, acarretando problemas quanto ao entendimento dos sistemas vivos como totalidades e de suas interações com o meio. Em algumas áreas, essa dificuldade torna-se marcante, como no desvendamento da ação integrativa do sistema nervoso central, que é holístico por excelência. O mesmo ocorre em relação aos fenômenos da cura e da dor, que geralmente envolvem uma interação de aspectos físicos, psicológicos e ambientais, evidenciando-se nessas áreas as limitações da abordagem reducionista.
Tendo em vista a associação entre Biologia e Medicina ao longo da história, a Medicina ocidental incorporou aquela abordagem da biologia, incluindo a divisão cartesiana, e deixando de tratar o paciente como uma pessoa total. Consequentemente, não conseguem os médicos entender importantes doenças da atualidade, como o câncer e a AIDS. Concentrando-se em partes cada vez menores do corpo e se especializando no estudo dessas partes, os médicos perdem a visão do organismo como um todo e do paciente como ser humano, referindo-se frequentemente aos pacientes como “o pâncreas do leito 3”, “o estômago que eu atendi ontem” e “a úlcera que subiu para a cirurgia”.
Ao longo da história humana, vemos a cura sendo praticada por curandeiros que, dentro de sua sabedoria, compreendiam a doença como um distúrbio da pessoa, envolvendo seu corpo, sua mente, sua autoimagem, sua relação com o meio, sua visão de mundo e suas crenças. Não se restringiam, portanto, a fenômenos puramente físicos, corporais, como ocorre no modelo biomédico.
Transcorridos três séculos que Descartes expôs suas ideias, a medicina ocidental ainda se baseia, como cita Endel, “nas noções do corpo como uma máquina, da doença como consequência de uma avaria na máquina e da tarefa do médico como conserto dessa máquina.” (1)
Segundo a OMS, “a saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não meramente a ausência de doenças ou enfermidades.” Esta definição, apesar de colocar a saúde como um estado estático, em vez de focalizá-la como um processo em evolução constante, ressalta a sua natureza holística. E, nesta concepção, a enfermidade física vem a ser apenas uma das manifestações de desequilíbrio do organismo. Como outras possíveis manifestações temos as patologias psicológicas e sociais. E pode ocorrer que, ao eliminar o sintoma físico por meio de uma intervenção médica restrita e localizada, sem compreensão e manejo do contexto em que aquele sintoma se insere, a doença se manifeste ou em outro nível, ou por outro sintoma físico, ou ainda pela reincidência daquele primeiro. Um exemplo clássico são os pacientes com úlceras, que, tempos após a cirurgia, não raramente retornam ao hospital com reincidência daquele sintoma, ou seja, com nova úlcera. Outro exemplo são os pacientes com câncer, em que mesmo após a completa extirpação cirúrgica do tumor, mas permanecendo a problemática emocional de base, ocorre uma recidiva da malignidade.
A divisão cartesiana levou à ênfase no aspecto corporal, físico, negligenciando os médicos os outros componentes – psicológicos e sociais das doenças. No entanto, o que consta em termos de registro histórico, é que o próprio Descartes considerava importante a interação entre corpo e mente na dinâmica e no tratamento das doenças, a ponto de diagnosticar determinados sintomas físicos como devidos fundamentalmente à tensão emocional, prescrevendo relaxamento e meditação além do tratamento puramente físico. Assim, como bem analisou Capra, “Descartes mostrou-se muito menos cartesiano do que a maioria dos médicos atuais.” (2)
Pasteur, em sua teoria microbiana da doença, concluiu que, funcionando o corpo humano como hospedeiro de vários microrganismos, estes só causariam dano quando o organismo estivesse debilitado, deslocando a atenção do agente patológico causal para o meio como fator principal do adoecimento. E foi mais além, sugerindo a influência dos estados mentais na resistência do organismo à infecção.
A tendência central de evolução da Medicina permaneceu, contudo, transferindo o foco do paciente para a doença. E, durante o séc. XIX, houve uma acentuada preocupação com a localização, diagnóstico e classificação de patologias. Hospitais se transformaram em centros de terapia e de ensino, dando início à tendência para a especialização, que atinge o auge nesse nosso século, incrementada pelo crescente uso de uma tecnologia complexa na assistência médica.
No séc. XX, a Biologia molecular tornou-se a base da Medicina científica, sendo as patologias reduzidas a esse nível, o que restringiu enormemente a visão dos distúrbios e das terapêuticas. Essa limitada abordagem tem como consequência uma redução na eficácia da prática médica.
Além disso, a influência cartesiana dividiu a prática da assistência à saúde em dois grupos distintos: de um lado, os médicos, tratando do corpo; de outro lado, os psiquiatras e psicólogos, ocupando-se da mente. Existe hoje um hiato entre esses dois grupos, como podemos observar nas apresentações de trabalhos em congressos, pela ausência de uma abordagem conjunta sobre um determinado tema de saúde. O mesmo ocorre na literatura e na pesquisa. Na área da Psicologia, encontramos discussões em torno da influência dos fatores emocionais no organismo. Na área da Medicina, a literatura fundamenta-se na fisiologia e na bioquímica, sem fazer menção aos aspectos psicológicos das doenças.
As questões filosóficas e existenciais são também evitadas, consideradas não pertinentes ao domínio da ciência médica, objetiva e positivista. Esta situação torna-se flagrante na questão da morte, que é, na medida do possível, negada, como o é na nossa sociedade de um modo geral, sendo abordada pelo lado técnico das intervenções físicas, guardando os profissionais um asséptico distanciamento afetivo-emocional do seu significado para si próprios e para o paciente. Lembro-me de um adolescente internado, que estava sentido e chateado com a morte de um outro paciente, que ele havia presenciado na véspera. Disse-me: - “Falei com o médico e ele não me disse nada. Acho que eles (os médicos) não sentem, não é? A esposa dele (do paciente) estava chorando muito.”
Este quadro contrasta muitíssimo com o que era considerado no passado o papel do bom médico, junto aos pacientes agonizantes e suas famílias, proporcionando-lhes conforto e apoio emocional.
A prática da Medicina transferiu-se do clínico-geral para o especialista, do consultório para o hospital, em virtude inclusive da tecnologia utilizada. A assistência ao paciente tornou-se despersonalizada. Perdeu-se aquela qualidade afetiva, humana da relação. A pessoa com seus sentimentos, expectativas, suas necessidades, preocupações, seus limites e significados deixou de ser vista, tornando-se um número, um órgão ou uma entidade nosológica. Com frequência, o paciente sente-se impotente e assustado, subjugado pela ciência e pela tecnologia, à mercê dos profissionais, como se o seu próprio corpo deixasse de pertencer-lhe. Ele ouve, enquanto os médicos discutem entre si o seu quadro patológico e decidem o procedimento que vai ser feito nele, em seu corpo, como se este não lhe pertencesse mais. Procura entender fragmentos daquele discurso científico que lhe é vetado e no qual, ao mesmo tempo, ele está incluído.
A doença é vista como algo exterior que ataca, interferindo no funcionamento normal do organismo, sendo necessária uma ação também vinda do exterior para restabelecer a ordem. Não existe dentro do sistema de assistência à saúde vigente a noção de poder de cura inerente ao organismo, não sendo levada em conta a percepção que o indivíduo tem de seu próprio corpo, nem estimulada a confiança em seu próprio organismo. Na realidade, no atual sistema temos uma assistência à doença, que é alimentada para os lucros do complexo empresarial que se formou envolvendo as indústrias farmacêuticas, os hospitais e clínicas, e os planos de saúde.
De modo semelhante, não se fomenta a compreensão do paciente com relação ao seu adoecimento, ou seja, a compreensão de como foi ocorrendo e se desenvolvendo aquela desorganização em seu organismo, de qual é o seu sentido no curso de vida daquela pessoa, de como aquele adoecimento se insere no seu processo de vida. Uma vez que os médicos não alcançam essa compreensão nem em relação a si mesmos, como fomentá-la nos pacientes? Como bem salientou Thomas McKeow, “deve-se reconhecer que a questão fundamental na medicina é porque a doença ocorre e não como ela funciona depois que ocorreu.”(1)
Vale a pena ressaltar aqui a distinção entre enfermidade e doença. Enquanto a primeira corresponde a uma condição do ser humano total, a segunda é vista como a condição de uma determinada parte do corpo. Os médicos deslocaram a atenção dos pacientes enfermos para as suas doenças, não havendo enfermidade se não for encontrada alteração estrutural, bioquímica ou funcional específica. E passaram a dirigir o tratamento exclusivamente para a correção da anormalidade biológica, dando como bem sucedido o tratamento que leva à extinção do sintoma, localizado em uma determinada parte do corpo, sendo partes diferentes tratadas por especialistas diferentes.
Como corolário do cientificismo que se instalou desde então, o médico é aquele que sabe o que está ocorrendo com o corpo do paciente e que pode intervir, visto que só ele possui o conhecimento científico racional e a tecnologia dele decorrente, capacitando-o para o diagnóstico e para a terapêutica. A saúde torna-se assim uma área médica, onde são considerados irrelevantes a avaliação do estado emocional, a história de vida e a situação familiar e social da pessoa.
O estado emocional merece o foco da atenção apenas quando interfere negativamente no tratamento clínico, sendo nessa ocasião comumente ministrado um ansiolítico ou um antidepressivo para uma solução rápida, que não necessite o envolvimento do médico na sua relação com o paciente.
A única história levantada é a das doenças no âmbito familiar e individual, constando esse histórico apenas de uma relação das ocorrências patológicas com as respectivas datas, numa perspectiva de sucessão linear de fatos, sem compreensão da interação e encadeamento dos fatores envolvidos. Desse modo, a doença é “tratada”, mas não compreendida, não se apreendendo o seu sentido na história e no contexto de vida da pessoa.
O médico é colocado no topo da pirâmide da “assistência à saúde”, ao qual os demais profissionais devem submeter-se, sendo considerados estes como mero ajudantes. Uma vez que essas outras categorias profissionais – enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais são formadas em sua grande maioria por mulheres, ao passo que a medicina ainda é uma área fortemente masculina, vemos reproduzir-se aqui uma atitude sexista presente na nossa sociedade em geral. É valorizada uma abordagem racional e agressiva, em detrimento da intuição e da sensibilidade, concluindo-se que a formação médica retroalimenta o sistema de valores de nossa cultura, não sendo enfatizadas nem desenvolvidas durante o curso de medicina a sensibilidade na compreensão e a habilidade no manejo dos problemas emocionais que se apresentam junto com os distúrbios físicos nos pacientes.
A Psicologia Humanista no Paradigma Holístico
A Psicologia como ciência e profissão possui uma história bem mais recente, cujo início situa-se no séc. XIX. E, de forma semelhante à Biologia e à Medicina, foi impregnada pelo paradigma cartesiano-newtoniano no afã de estabelecer-se como ciência aos olhos da crítica positivista. Adotando como modelo de teoria e de método a Física clássica, reproduziu em suas construções teóricas os conceitos da mecânica newtoniana.
Wundt e demais psicólogos estruturalistas do séc. XIX., objetivando realizar um corte com as influências da filosofia e da teologia na Psicologia, estabeleceram a introspecção controlada como método científico para o estudo de fenômenos da consciência humana, procurando reduzi-la a elementos básicos bem definidos. Surgiam assim os primeiros laboratórios de Psicologia experimental, marcando a influência da fisiologia no estudo da sensação e da percepção.
Por outro lado, no início do séc. XX, alimentados pelos mesmos objetivos, radicalizando-os ainda mais, os behavioristas centralizaram-se no estudo do comportamento humano observável, excluindo a consciência, cuja abordagem estaria ainda impregnada do subjetivismo que deveria ser varrido do campo da nova ciência. Ficava bem caracterizada no behaviorismo a imagem do homem-máquina, devendo o seu comportamento ser passível de controle e predição dentro da perspectiva da causalidade linear – determinado estímulo (S) provocando determinada resposta (R).
Mais ou menos contemporaneamente, assistia-se no desenvolvimento da psicanálise a construções do aparelho psíquico que utilizavam como modelo a Física clássica. Na teoria da homeostase, recorrendo ao modelo hidráulico, Freud enfatizava a necessidade de descarga periódica de tensão, fosse por meio da satisfação ou do deslocamento de impulsos, para a manutenção do equilíbrio interno do indivíduo. Em seguida, propôs o modelo topográfico da mente com deslocamento de conteúdos nesse espaço, estando associada a esses conteúdos uma certa quantidade de energia, como na mecânica newtoniana. Além disso, a abordagem genética da psicanálise concebia o funcionamento psíquico do indivíduo dentro de um rigoroso determinismo – todo comportamento ou sintoma teria sua causa-origem em uma fase do desenvolvimento.
Em reação a essas teorias reducionistas e materialistas, surgiram duas correntes na Psicologia – o gestaltismo e o funcionalismo, ambos enfatizando a unidade da consciência e a sua natureza dinâmica, processual. Criticaram a análise atomista da mente e pregaram a percepção por meio de gestalten, ou seja, de totalidades significativas. Essas duas correntes tiveram grande influência no desenvolvimento de novas propostas dentro da Psicologia na segunda metade do séc. XX, englobadas no que se denominou de Psicologia Humanista ou Terceira Força, da qual a Abordagem Centrada na Pessoa faz parte.
A Psicologia Humanista chegou salientando o papel da consciência no indivíduo, dotando-o de uma capacidade de reflexão da sua relação consigo mesmo e com o mundo, permitindo-lhe uma autoavaliação e um autogoverno, dispondo o indivíduo de uma liberdade que ele atualizará através de suas escolhas ao longo da vida, escolhas essas envolvendo uma responsabilidade consigo mesmo e com os outros. Essa visão do ser humano contrapõe-se à percepção do paciente como um objeto de diagnóstico e intervenção, característica da Medicina científica.
Focaliza também o indivíduo como uma totalidade corpomente, interagindo numa unidade, de modo que um se torna expressão reflexa do outro, ao mesmo tempo em que nele atua. O corpo, com sua cor, temperatura e umidade, com suas proporções, tensões musculares e movimentos, com sua vitalidade e com suas doenças, na realidade nos fala da personalidade daquela pessoa, de suas atitudes frente ao mundo e a si mesmo, de seus sentimentos, revelando a sua história emocional, as suas percepções e os seus anseios. Formam partes de um todo, de tal forma interligadas que não podemos modificar uma delas sem atuar concomitantemente nas outras. Eventos psicológicos e corporais não podem ser encarados separadamente um do outro; ambos significam a história do indivíduo. A separação corpo x mente é cultural e não inerente ao ser humano.
A partir dessa concepção torna-se indiscutível não só a necessidade de um trabalho conjunto de médicos e psicólogos, como também que os médicos absorvam essa visão holista e humanista, utilizando-a na sua relação com o paciente, seja no caso de queixas difusas e não localizadas, de disfunções ou lesões crônicas, ou de pacientes com risco de vida. Faz-se mister acreditar na existência em cada ser humano de uma tendência motivacional para o desenvolvimento de suas potencialidades, visando a sua conservação e o seu enriquecimento dentro das possibilidades e dos limites do meio. Carl Rogers chamou-a de Tendência Atualizante, colocando-a como suporte de sua prática clínica numa atitude de respeito à vida que muito se aproxima da postura do ser humano antes da Idade Moderna e dos curandeiros ao longo dos tempos. Tal atitude significa compreender a atuação das forças vitais numa determinada pessoa, agindo em consonância com elas e facilitando a sua expressão de um modo mais adequado para a preservação e o desenvolvimento daquele indivíduo, como é característico da Medicina homeopática. Opõe-se de forma clara à atitude intervencionista de pseudosuperioridade adotada pela Medicina científica.
Agir de acordo com a Tendência Atualizante presente no organismo implica percebê-lo com uma capacidade de autocura, ou seja, de reestruturação e regeneração ao nível físico, capacidade essa que funciona como condição sine qua non de qualquer terapêutica bem sucedida. Implica também acreditar na capacidade da pessoa lidar da forma mais realista possível com o seu adoecimento, podendo transformá-lo num momento de aprendizagem e crescimento, mesmo quando limitações lhe são impostas, ou quando o processo entrópico se tornou irreversível.
Compreende também uma atitude de aceitação das limitações que aquela pessoa apresenta, da sua maneira inadequada de se conduzir na vida, da qual a doença vem a ser um reflexo, uma expressão. Essa atitude, conceitualizada por Carl Rogers como consideração positiva incondicional do outro, abrange aceitar a pessoa com seus sentimentos, percepções, necessidades e significados, sem juízos ou reprovações, por mais desconexos ou absurdos que possam parecer para os profissionais. Significa aceitar até mesmo a sua necessidade presente de negação da doença e das suas implicações, percebendo essa negação como o recurso necessário naquele momento para lidar com aquela situação. Cabe aos profissionais que a acompanham proporcionar-lhe uma relação de suporte emocional, em que ela se sinta com maior segurança interna para lidar com o seu adoecimento de forma mais realista.
Por outro lado, é preciso reconhecer o direito que o paciente tem de tomar conhecimento de seu diagnóstico e manter suas esperanças de cura, independentemente do prognóstico que os médicos possam ter. E quantas vezes nos surpreendemos com a evolução positiva de um paciente, mostrando-nos que existem muitos aspectos no processo de cura que permanecem desconhecidos para nós. É de grande importância que os profissionais, sobretudo os médicos, substituam a atitude de domínio do saber científico e da verdade por uma atitude de humildade, flexibilidade e curiosidade diante dos processos da vida.
Com todas essas nuances, torna-se necessária uma escuta cuidadosa do paciente, dentro do seu quadro de referência interno, o que Carl Rogers denominou compreensão empática. Trata-se de buscar apreender como aquela pessoa vivencia o seu mundo e a si mesma, e que significados estão tendo para ela aquela doença, a internação, a cirurgia ou os outros tratamentos. Ou seja, como esses acontecimentos estão se inserindo no seu contexto existencial e que compreensão ela está alcançando sobre o seu adoecimento, cabendo ao psicólogo ajudá-la a desenvolver a partir disso uma compreensão mais abrangente e profunda de si mesma, interrelacionando aspectos orgânicos e emocionais, facilitando com que ela perceba a linguagem do seu corpo através dos seus sintomas físicos, linguagem essa que vai sendo decifrada na relação empática.
Em geral, o paciente é visto no hospital artificialmente destacado do seu contexto de vida, quando na realidade todo esse contexto está presente ali com ele na internação. E a tentativa por parte dos médicos de negá-lo só leva a um aumento de ansiedade no paciente, que se sente ignorado e sozinho em suas angústias, preocupações e expectativas.
Outro sentimento muito agudo é o da impotência por sentir-se na mão de outros, que sentenciam o seu diagnóstico e decidem o seu tratamento, devendo a pessoa submeter-se passivamente e pacientemente a ser tratada como um objeto de manipulação, como se, uma vez internada, perdesse o seu direito de escolha e decisão sobre si mesma, passando esse direito para o poder médico. O sentimento de impotência é potencializado no ato cirúrgico sob anestesia geral, durante o qual a pessoa perde a consciência e com ela a sua possibilidade de avaliação, escolha e intervenção. Ligado a isso, há também o medo da morte, de “ir e não voltar”, sendo comum os pacientes religiosos referirem-se a esse hiato involuntário da consciência como o momento em que eles estão “nas mãos de Deus”.
Um procedimento simples, que minimizaria essa angústia, seria a discussão do diagnóstico e do tratamento com o paciente, explicando-lhe, inclusive, o ato cirúrgico em uma linguagem acessível ao seu nível de compreensão, deixando claro a cada passo o seu poder de escolha e de decisão e assinalando, por outro lado, a sua responsabilidade de participação ativa em seu tratamento, abrangendo não só os aspectos orgânicos como também os psicológicos e os sociais.
Em suma, a atuação do psicólogo no hospital geral situa-se em dois níveis básicos, que se interpenetram no dia-a-dia da instituição, a saber:
3.1. Nível clínico (individual ou em grupo) –
Nesse nível, as angústias, ansiedades e medos dos pacientes são trabalhados através da compreensão empática e da consideração positiva incondicional, acompanhando-os nos períodos pré e pós-operatório, ajudando-os a integrarem aquela experiência em suas vidas através de uma compreensão mais ampla de si mesmos e de suas relações com o mundo. Desse modo, podem alcançar uma nova Gestalt, uma ressignificação de suas vidas, transformando a doença, a internação e os tratamentos em um momento de aprendizagem e crescimento.
A partir da crença nessa sua capacidade, nós podemos facilitar que a pessoa consiga responder para si mesma as seguintes questões: - “Como que essa doença aconteceu a mim? Como eu vim conduzindo a minha vida até aqui? De que modo eu venho me prejudicando? Que atitudes e valores têm norteado a minha vida? O que eu estou sentindo a necessidade de mudar em mim e em minha vida a partir de agora?” Desta forma, a doença deixa de ser vista como um agente externo que ataca de surpresa a pessoa, desorganizando a sua vida, e passa a ser compreendida como um processo, em que o agente é a própria pessoa, fazendo com que ela se perceba responsável pela sua própria saúde e desenvolva o autocuidado.
Com relação a esse ponto, existe uma diferença notável entre informar didaticamente o paciente sobre esses aspectos e facilitar com que o próprio paciente desenvolva essa compreensão e essas percepções. No primeiro caso, com frequência, a sua consciência não se amplia com relação a esses aspectos, limitando-se o paciente a cumprir uma determinação do “doutor” ou a seguir negligenciando os cuidados consigo mesmo. No segundo caso, esses aspectos ou questões são vivenciados internamente pelo paciente, integrando-os mais facilmente ao seu comportamento.
3.2 Nível institucional –
Nesse nível podemos trabalhar as relações dos demais profissionais – médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas e assistentes sociais com o paciente, procurando fazer com que eles o percebam em sua totalidade e unicidade, compreendendo-o a partir de seu referencial interno e na sua dinâmica pessoal. Faz-se necessário que aquelas mesmas condições requeridas na relação do psicólogo com a pessoa internada estejam presentes na sua relação com os demais profissionais, aceitando-os nas suas limitações e dificuldades pessoais, sem, contudo, perder de vista o paciente, foco primeiro do trabalho de todos ali. Entretanto, tendo claro que, na medida em que trabalhamos as relações dentro da instituição, favorecemos a criação de uma atmosfera menos ameaçadora e uma melhor abordagem do paciente, e contribuímos para a minimização de suas angústias e ansiedades, o que facilitará a sua recuperação, reduzindo as complicações no pós-operatório, causadas principalmente pelo stress da internação e da cirurgia.
Conclusão
De tudo o que foi dito acima, conclui-se, a despeito das concepções limitadas e limitantes da Medicina científica, ou até mesmo fomentadas indiretamente por elas, o importante papel que o psicólogo na abordagem humanista tem a desempenhar na instituição hospitalar, possuindo como instrumento básico de trabalho as relações humanas que a permeiam e que se intercruzam em uma teia dinâmica e processual. Tem como objetivo transformar essas relações em um meio de crescimento para todos os envolvidos, visto que nessas relações é com a vida que nos deparamos a todo instante, a vida com seus valores, com seus propósitos, com seus limites e com suas possibilidades, quando a vida do outro me remete a minha própria vida, como em um jogo de espelhos de foco infinito.
Cabe à Psicologia Humanista ajudar a Medicina a realizar a passagem em suas teorias e em sua prática do velho para o novo paradigma, recuperando aquelas qualidades humanas que ficaram perdidas na ciência.
Referências bibliográficas:
- Capra, F. O Ponto de Mutação. S.P.: Ed. Cultrix.
- Kurtz, R. e Prestera, H. (1989). O Corpo Revela. S.P.: Ed. Summus.
- Rogers, C.R. e Kinget, M. (1977). Psicoterapia e Relações Humanas, vol. I. M.G.: Interlivros.
- Greening, T. (1975). Psicologia Existencial-Humanista. R.J.: Ed. Zahar.
- Pfeiffer, W. e Ripke, T. (1990). Reflexions on Person-Centered Approach to Medicine, in Client-Centered and Experiential Psychotherapy in The Nineties. Belgium: Leuven University Press, 1990.
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